terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Aquário

Gosto de sentir as bolhas em minhas escamas. Essa é, segundo o ancião, a sensação mais próxima da liberdade que podemos sentir. O ancião é o único entre nós que já viveu em mar aberto. Ele costuma nos contar histórias de sua vida de quando era livre. Contou-nos sobre o imenso oceano, repleto das mais variadas criaturas, que vão desde os amigáveis golfinhos até os sinistros peixes bioluminescentes que residem nas profundezas. Contou sobre as graciosas águas-vivas, sobre os coloridos corais e até mesmo sobre o poderoso Leviatã, que impunha respeito entre as criaturas do mar e induzia as criaturas terrestres ao medo.
O ancião fora capturado em sua juventude, tendo em suas lembranças a esperança de um dia ser livre e rever toda a magnitude e beleza do oceano. Os responsáveis por sua prisão foram as criaturas terrestres que ele se refere como homens, que foram descritas por ele como seres gananciosos, capazes de prejudicarem os fracos e indefesos em prol da fama e riqueza.
Alguns de nós nascemos aqui, tendo como vista alguns peixes pequenos que nadam em conjunto, os corais falsos e o nosso reflexo proveniente das barreiras que nos cercam e nos separam do ambiente dos homens. Dia após dia somos observados por muitos deles. Maravilhados, eles apontam para nós ou então utilizam um estranho objeto que emite uma forte luz.
O ancião já tentou se comunicar com eles procurando uma forma de obter paz, porém os homens o ignoraram, e muitas vezes o colocavam separado do resto de nós como se quisessem observá-lo para aprender mais sobre nossa espécie, até que um dia, ele nunca mais voltou. Eu particularmente acho que jamais conseguiremos sair daqui. Muitos anos já se passaram. Muitos de nós já estão com idade bem avançada ou com a saúde debilitada. E também, muitos de nós já pereceram. Não consigo entender por que fazem isso conosco. Somos até um pouco parecidos fisicamente. A única parte que nos difere, é da cintura para baixo.


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